Estamos em um momento em que há uma proliferação de bandas de rock nacional cujos integrantes têm voz de adolescente, usam franjas enormes e calças coloridas. Nada contra essa onda “teen”, só quero vê-la bem longe de mim. Não estou generalizando, sei que existem muitos adolescentes que não precisam embarcar na moda do momento para se sentir valorizado; eu mesmo quando passei por essa fase de minha vida nunca fui afeito a esses modismos.Costumo baixar todo tipo de música na internet por mera curiosidade, vou armazenando no PC e um dia em que eu estiver de bobeira (como hoje) acabo escutando para me distrair. Entre esses meus arquivos, estava o CD/DVD acústico do Detonautas, que passei a madrugada de sábado escutando. Primeiro que me agradam muito trabalhos acústicos. E essa banda segue uma linha diferente do que anda aparecendo nos últimos tempos.
O repertório do CD/DVD faz um passeio pela história do Detonautas Roque Clube, com músicas dos quatro álbuns da banda, duas inéditas, duas regravações e dois poemas interpretados pelos Voluntários da Pátria, um grupo independente de arte contemporânea que reúne música e poesia composto por sete integrantes, entre eles o vocalista da banda (Tico Santa Cruz).
O carro-chefe desse mais recente trabalho é a música inédita “O inferno são os outros”, com letra romântica, que contém também questionamentos como “De que adianta essa sua ideologia, se tua própria liberdade se transformasse em opressão?”. Além desta, “Só nós dois” é outra música nova que faz parte do álbum. Ela possui uma levada bem romântica. A letra retrata bem o estilo das paixões adolescentes sem ser piegas.
Há espaço também para a crítica social, como a regravação dos anos 80 de “Até quando esperar”, da Plebe Rude, pois, como o próprio vocalista diz, sua letra faz muito sentido para boa parte da atual juventude. A banda relembrou também o grande poeta do rock brasileiro, Renato Russo, com “Mais uma vez”. Se a primeira nos choca pela violência social que já era revelada há 30 anos e que até hoje perdura, a poesia de Renato Russo nos mostra que não devemos desistir de mudar essa dura realidade.
E por falar em poesia, ela se faz presente no DVD em dois momentos. Primeiro com "Até quando?", na faixa 9, declamada por Igor Cotrim, do Voluntários da Pátria, que antecede a música “Até quando esperar”, já demonstrando a crítica social que é feita na canção seguinte, mas sem deixar de lado o maior sentimento humano: o amor.
“...E mesmo sabendo que toda riqueza que anda por aí
Está nas mãos erradas, que existe corrupção, que existe injustiça,
A força de um 'eu te amo' na primeira semana
Nos dá a certeza de que juntos nós vamos ganhar o mundo
Ainda que hoje seja um dia comum.”
O outro poema se chama “Ex-poesia”, na faixa 16, que foi declamado por Betina Kopp, também do grupo Voluntários da pátria. É, na verdade, um belo trabalho de metalinguagem, revelando o valor desta arte literária:
“...Se o poeta não existisse
As musas não seriam lindas
Os amantes não amariam o próximo
E o próximo amor seria o último
Talvez a poesia só exista pra derreter corações de gelo
Afinando o piano humano
Humana e sacana
Sentimental como o medo
Viva a poesia!”
O trabalho se completa com os grandes sucessos do grupo com uma nova roupagem como em “O dia que não terminou”, “Outro lugar” e “O amanhã”, hits que marcaram a carreira do Detonautas.
Se você é jovem, e procura algo de qualidade no cenário musical atual, fica a pedida. Além de apreciar um bom som, vai sair com bastante conteúdo. É isso!
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