Lá pelos meus 13 anos de idade tive a oportunidade de conhecer um pouco da vida de um grande homem de uma forma um tanto inusitada. Na escola em que eu estudava, todos os anos havia uma feira cultural. Na ocasião, eram formadas equipes que abordavam determinados assuntos. Antes, porém, era preciso escolher o tema e apresentá-lo à direção.O prazo para a entrega do tema a ser abordado já estava encerrando-se e minha equipe até então não havia pensado em nada. Foi aí que, no desespero, quando escutamos o professor falar na sala de aula do homem que conseguiu a independência da Índia, decidimos falar sobre ele: Mahatma Gandhi, o grande líder indiano. Levamos a sugestão à direção, que concordou, e fomos atrás de mais conteúdo, meio que em cima da hora, para ganharmos uma nota. Dessa maneira, pude conhecer um pouco da história de Mahatma Gandhi.
Lembro de ter ficado impressionado quando li que ele conseguiu a independência da Índia sem pegar em uma arma de fogo. Nessa época, quando escutava na escola a palavra “independência” pensava automaticamente em guerras. Fiquei mais surpreendido ainda quando vi sua foto. Pensei então: “nossa, como esse homem tão magro conseguiu tal feito?!”.
Quase 10 anos depois, na livraria da universidade em que estudo, deparei-me com a obra “Mahatma Gandhi – O Apóstolo da Não-Violência”, de Huberto Rohden. Quando bati os olhos nesse livro, veio-me à mente essa época de minha adolescência. Resolvi então comprá-lo para conhecer um pouco mais sobre Gandhi. Lendo o texto de Huberto, fui compreendendo quais eram as armas que Gandhi possuía. Ele era dotado de uma grande força espiritual e fazia de sua vida o exemplo de seus ideais.
Para Gandhi, é fácil ser espiritualmente puro longe do mundo material; é preciso ir além da purificação. “Plenamente liberto e livre é somente o homem que, depois de se consolidar definitivamente no mundo espiritual, volta ao mundo material sem se materializar”. Era dessa maneira que o mestre indiano agia, era um puro no meio dos impuros.
Suas armas eram então a ahimsa (a não-violência) e a satyagraha (o apego à verdade). O autor o define como um homem crístico, comparando-o com a luz que, “embora penetre em todas as impurezas, jamais se torna impura”. Desfez-se de todos os seus bens materiais por entender que pobreza externa só pode ser construída com grande riqueza interna.
Aos 18 anos de idade Gandhi transferiu-se para a Inglaterra a fim de estudar Direito. Foi nessa época que ele fez a leitura da Bíblia, sobretudo dos evangelhos, com destaque para o Sermão da Montanha, o qual considerava a alma do evangelho. Quando voltou à Índia, o Mahatma exerceu sua força espiritual contra a violência material, que era o poder britânico predominante na região.
A Inglaterra entrou no Extremo Oriente a partir do século XIX, ocupando-o comercialmente e escravizando um povo essencialmente pacífico. Diante dessa situação, Gandhi dedicou sua vida ao serviço da justiça e da reumanização de um povo tão desumanamente maltratado por uma nação cristã do Ocidente. Havia então duas opções a serem escolhidas: a da violência (que era a que eu conhecia dos livros de história) e a da benevolência. Ele poderia ter recrutado um exército e iniciado uma revolução, porém, preferiu a não-violência, que põe a benevolência espiritual acima de toda violência material. E esse era o fator central na vida do grande chefe espiritual.
Foi dessa maneira que, no dia 14 de agosto de 1947, foi proclamada, em Nova Délhi, a independência nacional da Índia, com as seguintes palavras do governador britânico: “o arquiteto da Independência não se acha entre nós nesta noite; mas ele está presente no coração de cada um de nós”. Gandhi estava pacificando mulçumanos e construindo casas para os pobres.
Muitos consideravam Gandhi inimigo da Índia por não ter declarado guerra aos mulçumanos, eles não admitiam essa “covardia” e “traição”. Com isso, na tarde do dia 30 de janeiro de 1948, quando o mestre indiano seguia para sua oração, o chefe de polícia acompanhava-o levando uma pasta fechada. Ghandhi, percebendo que ele levava uma arma para fazer sua proteção, disse: “Enquanto uns ainda devem matar para defender outros, eu não cumpri ainda minha missão. Morram milhares como eu, mas triunfe a verdade”. Essas foram umas das últimas palavras do Mahatma.
Naturam Godse, como era chamado o policial, segurava com a mão direita um revólver. Gandhi ainda o saudou dizendo “namasté”, sendo correspondido porque, como confessou mais tarde, o policial sentia simpatia pessoal por Gandhi, mas seu patriotismo obrigava-o a matá-lo. Mesmo agonizando, Gandhi ainda pediu que não castigassem o autor de sua morte. O sangue do apóstolo selou então a paz entre a Índia e o Paquistão, pois, se um mulçumano tivesse assassinado o grande chefe, teria acontecido uma inevitável guerra sangrenta.
Lendo esse livro, pude ter novamente contato com a história de Mahatma Gandhi de forma mais ampla e profunda. Diferentemente de 10 anos atrás, fui compreendendo a importância da verdade e da não-violência. Em um mundo cada vez mais agressivo, os ensinamentos desse pequeno grande homem podem nos mostrar que podemos buscar a justiça sem violência, sempre pautados na verdade. Ele nos mostrou que é possível, fazendo da sua vida o grande exemplo.
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